Antes de tudo: engajamento não é participação
A literatura de e-participação repete com frequência uma distinção que vale relembrar: sistemas podem atrair atenção e interação sem necessariamente ampliar a influência cidadã nas decisões. Engajamento e participação não são a mesma coisa.
Uma régua útil, adaptada de Hassan e Hamari (2020), separa iniciativas que apenas informam, as que consultam ou envolvem das que efetivamente empoderam e permitem co-criação. Nem todo processo que parece participativo de fato redistribui poder.
É fácil confundir atividade com influência. Uma plataforma com mil usuários comentando pode parecer participativa, mas se os comentários não afetam nenhuma decisão, é consulta. A aparência de participação não é participação.
É nessa diferença que o Anti-Authoritarian Toolkit e a EJ se encontram: no ferramental que garanta as condições necessárias para que a participação seja real.
O que o toolkit descreve
O Anti-Authoritarian Toolkit é um guia de ferramentas práticas para políticos, organizações da sociedade civil, ativistas, jornalistas, criadores de conteúdo e cidadãos comprometidos com a ação democrática. Organizado em playbooks específicos para combater o autoritarismo eleito, cobre desde construção de visão e narrativa até mobilização de eleitores, organização distribuída, deliberação e formação de coalizões.
O toolkit não fala em design de experiências nem em plataformas. Mas, lendo seus capítulos, aparece algo que se parece com uma arquitetura de jornada: há convocação, entrada, contribuição, deliberação e devolutiva. Nossa pergunta então passa a ser: "Como as condições para participação descritas no toolkit podem ser concretizadas por meio de uma ferramenta como a EJ, nossa plataforma para pautas participativas?"
Convocar: alcançar pessoas onde elas estão
O toolkit começa com visão e pertencimento. Construir uma imagem de futuro. Tornar a participação atraente com cultura, humor e rituais. Sua intuição está certa: pessoas se engajam com algo que as inclui, que diz qual é o seu papel e por que algo importa.
Mas há um problema prático que o toolkit não aborda: por onde chegar até essas pessoas e como atraí-las? Uma campanha cívica pode ter uma boa narrativa, mas se o ponto de entrada for restrito a um formulário de cadastro ou um link para entrar em mais um grupo, perde-se muita oportunidade de participação.
É aqui que o primeiro aspecto da EJ entra. A plataforma oferece APIs e componentes prontos que permitem integrar o processo participativo a inúmeros formatos e estéticas de exibição. Isso significa que a participação pode acontecer onde as pessoas já estão: Telegram, WhatsApp, Instagram, email ou web. Não é preciso levar o público até a plataforma, a plataforma vai até o público.
O toolkit fala em "tornar atraente". A EJ permite que "atraente" signifique acessível, no canal onde a pessoa já está interagindo. Uma campanha de mobilização pode usar a estética e o tom que fazem sentido para seu público, e o processo participativo acontece no mesmo fluxo, sem troca de contexto, sem página externa, sem barreira.
Entrar: o primeiro passo precisa ser fluido
A chamada para ação é o primeiro passo do processo. Uma vez que o interesse é genuíno e uma aproximação aconteceu, é hora de construir o engajamento que leve à entrada do participante. No Vol 04. Narrativa: Chamada à ação o playbook descreve que se deve "Fornecer instruções claras e reduzir todas as barreiras à ação".
Acontece que a maioria das plataformas participativas começa com a maior barreira possível: o cadastro. Antes de votar, antes de opinar, antes de qualquer ação cívica, criar conta. É quase tão ruim quanto pedir para a pessoa entrar em mais um grupo no Whatsapp.
A EJ inverte o processo. A participação é iniciada sem cadastro. O cidadão entra em uma conversa, vota de forma anônima, expressa preferências, tudo sem uma barreira inicial. A primeira CTA não é "cadastre-se para participar", é "vote nesta pauta". Um objetivo claro, específico, alcançável agora.
Contribuir: do receptor ao cocriador
Quando falamos em organização distribuída e fandoms, comunidades que produzem conteúdo, criam narrativas e mantêm vínculos, falamos em estrutura. Uma estratégia de comunicação estruturada com a EJ no centro, permite construir personas de opinião: grupos de participantes que possuem interesses e perspectivas semelhantes, que podem colaborar na construção da infraestrutura base para manter a chama acessa e mobilizar mais pessoas no processo participativo, começando com os ativistas e passando para o público mais geral.
Com a EJ, essa passagem acontece dentro do próprio fluxo participativo. O cidadão começa como votante anônimo, receptor de uma pauta. Depois, ao se cadastrar, pode submeter suas próprias ideias, cocriar o conteúdo. Ao se identificar com grupos e participantes, passa a atuar nas pautas e na mobilização de mais pessoas. O caminho de espectador a proponente é desenhado dentro da ferramenta e levado para os demais canais, como algo integrado e fundamental para a mobilização.
É importante ressaltar que a EJ não resolve tudo sozinha, a organização de comunidades, a produção de materiais, a linguagem e as estratégias de comunicação são construídas ao redor da ferramenta. Entretanto, a centralização dos dados e análises de perfis permite uma tomada de decisão embasada e iterativa, sempre ajustada às realidades da iniciativa.
A devolutiva: o ciclo de feedback
O que o toolkit não diz explicitamente é o que mantém o motor rodando. Nossa leitura é que a devolutiva é parte essencial desse processo. A participação sem devolutiva fica vazia, o cidadão vota, opina, propõe e depois? Se não há retorno sobre o que aconteceu com sua contribuição a chama apaga, por falta de sentido.
A revisão de Hassan e Hamari sobre 66 estudos de e-participação reforça esse ponto. As iniciativas que reportaram resultados positivos frequentemente citavam a criação de "loops de feedback entre organizações e cidadãos" como fator de engajamento contínuo. Quando o participante percebe que sua ação tem consequência visível, ele volta. Quando não percebe, ele desiste, ou pior, desenvolve ceticismo sobre o próprio processo.
Resumo rápido
O Anti-authoritarian toolkit nos trouxe um guia prático de como construir processos mais eficientes para combater o autoritarismo. A EJ é a plataforma ideal que conecta as diretrizes com o ferramental tecnológico que dá estrutura às iniciativas. A solução atua principalmente em dois problemas:
- Na redução de barreiras para a entrada no processo participativo
- No ciclo contínuo de devolutivas eficazes, que comunicam com o cidadão.
A EJ ainda pretende apresentar metodologias para um terceiro problema identificado nos inúmeros processos participativos que já desenvolvemos: o engajamento. Este tópico é parte do assunto que tratamos no post da frente de jogos sérios em cidadania.